3 de jun de 2013

Escola Tradicioal-Linear e Escola Transformativa


Vimos que as escolas de negociação fornecem a plataforma teórica para o estudo da mediação. Isto é possível porque a mediação stricto sensu sugere ao mediador uma postura passiva (conciliação passiva, conforme a tradição norte-americana), segundo a qual o acordo se torna consequência de um “azeitamento” comunicativo entre as partes em conflito.


Vimos que a ESCOLA TRADICIONAL-LINEAR (Bruce Patton, William Ury e Roger Fischer) propõe uma alternativa à abordagem adversarial pura, isto é, aquela cujos resultados possíveis pressupõem, sempre, a derrota de um e a vitória do outro, ou a derrota de ambos. Segundo esta escola, a chance de acordo aumenta bastante quando as partes adotam uma abordagem cooperativa, ampliando a área de contato entre os contendores, aumentando, assim, a zona de acordo possível (ZOPA).

A chave para o desenvolvimento de uma postura cooperativa está no abandono do agir estratégico, em prol de um agir conforme os interesses. Noutros termos, trata-se de mudar de foco; das posições para os interesses.

A escola Tradicional-Linear também sugere técnicas a serem adotadas pelo mediador (lembremos da similitude conceitual entre a mediação e a negociação assistida). Estas técnicas servem, na verdade, para auxiliar as partes a alcançarem o acordo, trafegando pelos caminhos da cooperação.

Essas técnicas se desenvolvem em cinco etapas:
CONTRACTING è Fase inicial, em que o mediador propõe que as partes se identifiquem e se conheçam. Além disso, é nesta etapa que as regras, propósitos, limites e vantagens do processo negocial são expostos. Esta etapa é importante, pois é nela que se constrói a confiança das partes na mediação.

DEVELOPING ISSUES è Nesta fase, o mediador abre os debates, mas adota a técnica “escutatória” (propõe-se, na verdade, uma “escuta ativa”). O propósito desta etapa é a identificação dos interesses de cada uma das partes em conflito. Esta identificação é possível não só a partir das articulações visíveis, mas também da leitura das reações mais despercebidas. Forma-se nesta etapa, portanto, o liame cooperativo.

A MEDIAÇÃO è Após a apreensão das chamadas questões centrais, isto é, os interesses mais salientes ostentados pelas partes, propõe-se ao mediador a utilização da TÉCNICA DO LOOPING, que consiste na utilização profusa de paráfrases (rephrasing) e de recontextualizações (reframing). O intuito desta fase é revelar modelos mentais (percepções a priori que as partes possuem de si próprias, do outro e do objeto do conflito) e interesses até então ocultos. Noutros termos, trata-se de tentar fazer coincidir discurso e prática, objetivo e proposta. Esta fase é, por natureza, conflituosa, pois são reveladas as contradições e ideologias dos contendores. Demanda-se, portanto, bastante sensibilidade do mediador, além de habilidade. A manutenção da confiança das partes é fundamental, pois o pior cenário possível é aquele em que as partes deixam de confiar no mediador. Ao final, as partes poderão externar, sozinhas seus verdadeiros propósitos.

BRAINSTORMING è Evidenciando-se ambos os interesses, e tomando-se ciência das condições e limites de cada um, tende-se a formar, talvez, o principal consenso intermediário entre as partes: a de se chegar a um consenso que traduza, da melhor forma possível, as perspectivas de cada um, e que promova a maior satisfação possível. Espera-se nesta fase uma maior fluidez do diálogo, o que se aproveita para que as partes comecem a formular as opções de acordo.

DRAFTING THE AGREEMENT  -  É a fase em que os termos do acordo são lavrados.
A escola Tradicional-Linear propõe, portanto, uma mudança de foco, e uma mudança de postura. A mediação serve, neste caso, para estimular as partes a se sentirem confortáveis nesta nova perspectiva, além de fazê-las crer que é possível se chegar a um acordo satisfatório para ambas, sem que se exijam delas concessões que as façam sentir-se derrotadas.

No entanto, a atuação do mediador é irremediavelmente orientada para o acordo, para o consenso, concentrando-se, neste caso, na satisfação circunstancial das partes diante do conflito.

Está aí a grande distinção entre as escolas TRADICIONAL-LINEAR e a escola TRANSFORMATIVA (Bush e Folger).

A ESCOLA TRANSFORMATIVA, também conhecida como escola francesa, tem em comum com a escola tradicional-linear o fato de que o mediador assume uma postura passiva, diante do conflito. A ênfase no diálogo também é um valor nutrido por ambas as escolas. Porém, as coincidências acabam por aí.

Diferentemente da escola americana, a escola francesa não orienta a ação do mediador para o acordo. Este, se vier, é apenas uma consequência do cerzimento das tramas sociais esgarçadas, diante do quê o conflito é sua face exposta.

Abaixo, repriso um trecho do didático artigo escrito por Maria Dias de Araújo Lima e Maurício Vicente Silva Almeida:

A mediação transformativa foi um modelo elaborado por Robert A. Barush Bush, teórico da Negociação e Joseph F. Folger, teórico na comunicação. Este modelo criado, aplicado e adaptado em todo mundo, tem como objetivo situar o acordo como uma possibilidade, diferente do modelo harvardiano que tem o acordo como principal objetivo. Esta Escola Clássica visa trabalhar os interesses e necessidades das partes e não somente a posição cristalizada do conflito.

Observa-se que a transformação na relação entre os litigantes viabiliza o refazimento dos laços afetivos e consequentemente, o acordo. Nesse modelo o mediador tem como foco a mediação passiva, ou seja, não existe a intervenção direta do mediador, que utiliza de técnicas de negociação para facilitar o diálogo entre as partes, para que juntas e de forma autônoma, possam construir uma decisão através do diálogo. O empowerment ou empoderamento das partes é de suma importância  para que as mesmas solucionem por si só o conflito.

Registra-se que este modelo trabalha o conflito na sua integralidade, ou seja: o aspecto emocional, afetivo, financeiro, psicológico e legal. É valido ressaltar que na mediação transformativa, o ideal é que o conflito seja trabalhado por uma comissão transdisciplinar.

É valido observar também, que durante os últimos anos, as transformações sociais e humanas modificaram as famílias e suas estruturas e essa multiplicidade de modelos familiares (monoparental, a adotiva, a recomposta, as homoparentais, e outras) demandam novos profissionais e abordagens. E é a mediação transformativa de Bush e Folger o instrumento mais adequado para resolver estas novas questões.

Vê-se que a escola transformativa propõe que o conflito seja tratado radicalmente, isto é, nas suas raízes. O papel do mediador é ainda menos incisivo, considerando o paradigma harvardiano, mas multifacetado, o que implica, muitas vezes, na utilização de vários mediadores (advogados, psicólogos, assistentes sociais etc.). Ao mesmo tempo, esses profissionais devem atuar empregando as técnicas inerentes aos seus respectivos ofícios, mas não se servirem de seus ofícios para ostentarem uma posição de poder. Esse poder deve brotar das próprias partes; são elas que devem se sentir empoderadas, capazes de, por si sós, chegarem ao consenso.

Até mesmo a ideia de consenso deve ser repensada, segundo a escola francesa. Para a escola tradicional-linear, a despeito de o consenso levar em consideração o grau de satisfação das partes, e não o quanto suas pretensões iniciais foram alcançadas, em termos de vitória e derrota, fracasso e sucesso, o consenso sempre estará ligado aos tópicos que estruturam o conflito, ainda que sob a perspectiva dos interesses. Na abordagem da escola transformativa, o consenso obtido neste tipo de mediação pode se ligar ao objeto do conflito em si, mas à forma pela qual as partes o enfrentam, no seu dia a dia. Da mesma forma, a noção de sucesso também é bastante subjetiva, pois a mediação, segundo a ótica transformativa, poderá ser bem sucedida, ainda que não se tenha chegado ao consenso, com relação ao objeto do conflito.

Como o texto anterior menciona, a abordagem transformativa tem sido muito bem aplicada nos conflitos de vizinhança, e principalmente, nos conflitos familiares. Em comum, trata-se de conflitos que brotam de relacionamentos com tendência à durabilidade.

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